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Este blog trata basicamente de ideias, se possível inteligentes, para pessoas inteligentes. Ele também se ocupa de ideias aplicadas à política, em especial à política econômica. Ele constitui uma tentativa de manter um pensamento crítico e independente sobre livros, sobre questões culturais em geral, focando numa discussão bem informada sobre temas de relações internacionais e de política externa do Brasil. Para meus livros e ensaios ver o website: www.pralmeida.org.

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sábado, 15 de julho de 2017

Academicos gramscianos continuam com as velhas ilusoes "brics-ianas": relato em Carta Capital


Três típicos acadêmicos gramscianos criticam, no costumeiro estilo dessa tribo e no pasquim costumeiro da comunidade, a atual política externa do Brasil, a partir de um "fórum acadêmico" sobre o Brics, realizado recentemente na China
Vindo dessa categoria de analistas, não se poderia mesmo esperar outra coisa, senão uma pauta totalmente comprometida com a anterior  "política externa ativa e altiva", que tanto encantou a tribo dos convertidos. 
Como eles partem do suposto de que o governo atual é "golpista" , eles condenam igualmente a política externa, pois seu ponto de partida é a diplomacia anterior, e tudo o que discordar dos antigos pressupostos é ipso facto golpista, equivocado, caudatário do império, e todos os demais defeitos que ideólogos do lulopetismo diplomático podem encontrar em qualquer diplomacia que não esteja alinhada com suas escolhas políticas peculiares.
Eles acham que o Brics deveria ser tão importante no governo atual quanto o foi no anterior, que aliás criou o grupo, quase que totalmente dominado pela China, um país que, como se sabe é um grande defensor da democracia e dos direitos humanos. Os três não admitem que o governo atual possa ter qualquer atitude de retraimento em relação a um grupo que possui a peculiaridade de ter sido escolhido não por vontade dos quatro países originais, mas por uma sugestão específica de um economista de um banco de investimento pensando unicamente, exclusivamente, em maiores retornos de mercado para investimentos financeiros do grande capital multinacional.
Para eles não existe nenhuma contradição nesse fato, como tampouco  nenhuma estranheza em proclamar que a intenção manifesta desse grupo é a convergência entre esses países para facilitar o "reordenamento do poder mundial". 
Falta aos acadêmicos gramscianos uma reflexão ponderada sobre o significado do grupo em termos de  modernização econômica e social, com respeito aos direitos humanos, democracia e liberdades econômicas de cada um dos países, uma vez que suas convicções políticas não alcançam esses aspectos, mas permanecem num jogo de soma zero de um ilusório "poder mundial". 
Não espero converter nenhum dos três gramscianos a outras convicções, pois as deles já são arraigadas, e se manifestam em frases tão simplistas, redutoras, no limite idiotas, como a que eles repetem como um mantra: o atual governo estaria comprometido com um "alinhamento submisso aos poderes centrais". 
Eles provavelmente preferem que um governo "progressista" como o que eles defendem -- aquele mesmo que provou a Grande Destruição econômica, e lançou o Brasil no descrédito mundial ao produzir, deliberadamente, o MAIOR ESQUEMA DE CORRUPÇÃO já visto no mundo -- acompanhe outros "anti-hegemônicos" numa espécie de "alinhamento ativo com poderes periféricos". Esse é o desejo dos três gramscianos que escrevem o que transcrevo abaixo.
Como sempre, meu blog está aberto a todo tipo de reflexão, de preferência as mais inteligentes, mas mesmo argumentos idiotas, como os que figuram abaixo, merecem transcrição, numa prova de quão débil mentalmente é a nossa academia, quão simplistas podem ser esses acadêmicas, quão alinhados ideologicamente podem ser os gramscianos, quão coniventes com uma organização criminosa e um governo corrupto eles podem ser.
Paulo Roberto de Almeida  
Brasília, 15 de julho de 2017
 

Relações Internacionais

Fórum Acadêmico dos BRICS e os (des)caminhos da diplomacia brasileira

por Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais (GR-RI) — Carta Capital, 14/07/2017; link: https://www.cartacapital.com.br/blogs/blog-do-grri/o-forum-academico-do-brics-e-os-des-caminhos-da-diplomacia-brasileira
Brasil teve participação pífia, condizente como o momento atual do país e sinalizou que os BRICS não são prioridade
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Wikimedia Commons
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Temer ao lado dos líderes dos BRICs em cúpula do G-20 em 2016. No Fórum Acadêmico deste ano, porém, participação comprovou que grupo não é prioridade
Por Renata Boulos, Diego Pautasso e Cláudio Puty*
Ocorreu em Fuzhou, na China, entre os dias 10 e 12 de junho de 2017, o 9º Fórum Acadêmico dos BRICS com o tema “Pooling Wisdom and New Ideas for Cooperation”. O Fórum reúne organizações da sociedade civil, think tanks e partidos políticos e costuma preceder a Cúpula dos BRICS no país anfitrião.
Quatrocentas pessoas formaram o público principal do evento, composto por membros dos governos dos cinco países (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), países visitantes (como Filipinas e Argentina, por exemplo), instituições acadêmicas, organizações da sociedade civil e partidos políticos.
O encontro teve grande importância para a China, pois é um dos principais fóruns onde a paradiplomacia ocupa lugar central e tem sido um espaço de consolidação dos BRICS para além dos chefes de estado.  
O Brasil teve uma participação pífia, condizente como o momento atual do país e mais uma vez sinalizou que os BRICS não são prioridade para o atual governo. O think tank brasileiro, IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas), sequer se fez comparecer porque a direção do órgão simplesmente não liberou as passagens dos pesquisadores. 
A Presidência da República e o Itamaraty mandaram representantes do terceiro escalão, que não expressaram qualquer diretriz da política externa brasileira, tampouco nossa estratégia para o agrupamento BRICS. Imaginamos que esboçá-las deva ser uma tarefa árdua, à medida que sabemos que malta temerosa hoje ocupando o Palácio do Planalto não constitua propriamente um governo.    
Talvez por conta disso, a articulação entre os membros do governo brasileiro e integrantes da sociedade civil, think tanks e partidos políticos tenha sido praticamente nula, como se fôssemos membros de países distintos. Causa espécie a falta de entendimento do papel do BRICS como mecanismo de articulação de países emergentes, cujo papel no reordenamento do poder mundial é irrefreável.
Especificamente neste Fórum - que representa um espaço para estratégias de cooperação entre buscando mecanismos de convergência de diversos setores da sociedade -  a ausência do governo diz muito, e foi notada por russos, chineses e sul-africanos, que, por sinal, enviaram delegações de alto nível.
Esse evento refletiu o quadro mais abrangente de (des)caminho da política externa brasileira, evidente desde o início do governo surgido do golpe. A outrora diplomacia acusada de ‘politizada’, agora conduzida pelo PSDB de José Serra e Aloysio Nunes produz constrangimentos em série e é digna de uma República de Bananas, não de um país da importância do Brasil.
Recordemos.  A nova direção do Itamaraty inaugurou sua gestão disparando baterias contra os países vizinhos e fechando embaixadas na África e no Caribe. Agora segue com a ridícula obsessão por ingressar na anacrônica OCDE e promove operações militares com o exército americano em plena Amazônia brasileira.
Enquanto isso, as instituições voltadas à política externa soberana e autônoma, como a UNASUL, Mercosul, CELAC, a política africana brasileira e os BRICS praticamente saíram da agenda internacional. A resposta infantil à crítica de órgãos internacionais de direitos humanos (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos e pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos) sobre o ‘uso recorrente de violência’ contra manifestantes na Cracolândia em São Paulo refletem o caráter do atual governo.
E não para por aí. Recentemente, o Brasil decidiu reduzir drasticamente sua participação no Banco de Investimento em Infraestrutura Asiático (AIIB, na sigla em inglês), encabeçado pela China e do qual o Brasil é membro fundador, ficando com 50 ações ao invés das 32 mil ações inicialmente acordadas.
Não tivemos sequer participação no Fórum do grande plano de infraestrutura da China para o mundo: o  “Belt and Road Initiative” quando até nossos vizinhos argentinos e chilenos se fizeram presentes.  Finalmente, o ápice dessa festa funesta e aziaga é a série inacreditável de gafes cometidas por Michel Temer em suas visitas internacionais.
Entre os dias 3 e 5 de setembro, ocorrerá a 9ª Cúpula de Chefes de Estado do BRICS em Xiamen, província de Fujian (China), com tema "BRICS: parceria mais forte para um futuro mais brilhante". Enquanto isso, o Brasil parece incapaz de formatar um projeto de inserção internacional para além de recuperar um alinhamento submisso aos países centrais – incluindo aí uma atuação voltada a aprofundar a crise venezuelana.  
Mais que lapsos, não ter projeto é o próprio projeto deste governo ilegítimo, impopular, envolvidos em malversações múltiplas, cuja única função é desmontar não somente o ciclo de políticas consagradas no período Lula-Dilma, mas inclusive conquistas oriundas da Constituição de 1988 e mesmo da Era Vargas. O governo Temer é a cara das nossas elites.
*Renata Boulos é mestre em relações internacionais (Universidade de Essesx) e sócia-diretora do INCIDE – Instituto de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento. Integrante do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais/GR-RI
Diego Pautasso é doutor em Ciência Política (UFRGS) e professor de Relações Internacionais da UNISINOS
Cláudio Puty é Ph.D. em economia (New School for Social Reserch), professor da UFPA e professor visitante da University of International Business and Economics/Pequim

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Meus tempos de Ginasio Vocacional (1962-65) - Paulo Roberto de Almeida

Uma postagem de sete anos atrás, retratando uma realidade de mais de 50 anos antes, agregada de comentários recebidos no momento da divulgação, em meu blog DiplomataZ.

SEGUNDA-FEIRA, JANEIRO 11, 2010

30) What a Difference a School Makes - Meu depoimento sobre o Ginasio Vocacional

What a difference a school makes...
O traço todo de minha vida no Vocacional Oswaldo Aranha
Paulo Roberto de Almeida
Aluno da primeira turma (1962-1965) do Ginásio Estadual Vocacional Oswaldo Aranha
(Avenida Portugal, Brooklin, São Paulo, SP)

“O traço todo da vida é para muitos um desenho da criança esquecido pelo homem, mas ao qual ele terá sempre que se cingir sem o saber...”, escreveu Joaquim Nabuco no começo de Minha Formação (1900), quando ele se refere ao período transcorrido no Engenho Massangana, no qual passou os primeiros oito anos de sua vida e onde recolheu suas primeiras impressões sobre o mundo. Nabuco continua dizendo que esses anos teriam sido decisivos na constituição de sua personalidade: “Pela minha parte acredito não ter nunca transposto o limite das minhas quatro ou cinco primeiras impressões...”
De minha parte, o traço todo de minha vida foi indelevelmente marcado pelos quatro anos que passei, adolescente, no Ginásio Estadual Vocacional Oswaldo Aranha, inaugurado em 1962 justamente pela minha turma, pioneiríssima de uma experiência inédita no Brasil, de educação integral e radicalmente diversa de tudo o que se fazia até então em matéria de formação de jovens. A “minha formação”, se eu tivesse de escrever um livro equivalente de memórias, teria de reservar um largo espaço ao Vocacional, tão importante ele foi para a formação de meu caráter, para a definição de minhas orientações intelectuais, das minhas quatro ou cinco primeiras impressões do Brasil e do mundo. Ao “Ginásio” devo o que sou, hoje, e o reconheço plenamente, com toda a saudade que uma memória fugidia pode trazer para a mente do homem maduro, que sou hoje, esses anos de juventude passados num ambiente verdadeiramente excepcional para o jovem que eu era no começo dos anos 1960.

Minha Formação 
Até onde minha mente alcança, no recuo para as origens, me vejo um garoto brincalhão, num bairro rarefeito da então periferia da cidade de São Paulo, quase às margens do rio Pinheiros, numa pequena rua de terra, cercada de terrenos baldios – onde a “molecada” (esse era o termo) do bairro disputava animadas peladas de futebol, corridas de pegar, piques, pião, taco e outras brincadeiras típicas de garotos de famílias modestas –, zona repicada de casas simplórias de alvenaria, praticamente nenhum edifício ou construção mais imponente, no que era então a Chácara Itaim (mais tarde chamado de Itaim-Bibi, para distinguí-lo de outro bairro com o nome de Itaim Paulista). Além de brincar na rua, também freqüentava o Parque Infantil, ou seja, a pré-escola municipal – da qual me lembro da gangorra e da merenda à base de leite e pão com goiabada – e, mesmo antes de aprender a ler, a Biblioteca Infantil, para jogos de salão e as sessões de cinema às quintas-feiras: Os Três Patetas, Gordo e Magro, Roy Rogers, Tarzan e Oscarito e Grande Otelo eram os filmes habituais, numa época em que o cinema nacional era feito sobretudo dessas comédias-pastelão.
Esse era o lado risonho de uma existência bem mais dura, posto que meus pais, ambos com primário incompleto, não tinham condições de assegurar sequer o mínimo para manter o lar, então uma modesta casinha com dois cômodos nos fundos de um terreno relativamente grande para os padrões de renda que eram os nossos. Aliás, falar de renda seria um exagero, pois que os ganhos conjuntos de meu pai, um modesto motorista de entregas numa torrefação de café, e os de minha mãe, como lavadeira “para fora”, certamente não alcançavam para todas as necessidades da casa. Eu e meu irmão Luiz Flávio tivemos portanto de trabalhar, desde muito cedo, primeiro recolhendo restos de metal nos fundos de uma fábrica – para revendê-los ao ‘ferro-velho’ –, depois como pegadores de bolas de tênis no Clube Pinheiros, mais adiante como empacotadores à base de gorjetas no supermercado Peg-Pag; lembro-me da lanchonete de estilo americano na esquina do comércio, da qual eu cobiçava (sem ter dinheiro para comprar) sobretudo os sundays e os banana-splits. 
Ao aprender a ler, na tardia idade de sete anos, pude finalmente começar a freqüentar de verdade a Biblioteca Infantil Anne Frank, onde devo ter passado o essencial de minha infância e pré-adolescência: deixando os jogos de lado, eu ficava o tempo todo na sala de leitura, de onde também retirava, dia sim, dia não, dois ou três livros para continuar a leitura em casa, de noite, deitado na cama, à contra-luz; Monteiro Lobato, obviamente, e tudo o mais que me interessasse. Farei, em outro depoimento, a relação de minhas leituras juvenis, mas não poderia deixar passar o História do Mundo para as Crianças, adaptado por Monteiro Lobato de uma edição americana, um livro que foi verdadeiramente decisivo em minha formação e em minha orientação para os estudos humanísticos: devo tê-lo lido várias vezes, pois que, ao entrar para o Vocacional, eu era um “craque” – segundo a gíria da época – em todas as fases da História, da antiguidade à era moderna e mais além. 

A Grande Transformação 
Terminando os estudos primários na Escola Pública Municipal Aristides de Castro, a dez minutos de caminhada de casa, ainda fiz um “quinto ano” – que não era obrigatório, e muitos alunos de minha condição deixavam então o ensino formal – na mesma escola, sendo esse o caminho de “admissão” (o nome alternativo desse ano suplementar) para os estudos ginasiais, ou seja, o começo do segundo ciclo no Brasil, nessa época composto de “ginásio” e “colégio”, a última fase antes do terceiro grau.
Ninguém na minha família estendida tinha chegado então ao segundo ciclo e a opção que se apresentou aos meus pais foi a de uma escola técnica, para me dar de imediato uma formação profissional, uma inserção direta na vida ativa, com menos de 14 anos. Lembro-me de ter visitado, com minha mãe, uma escola de artes industriais do sistema Senai, com a intenção de uma possível inscrição no curso de marcenaria, a “profissão” que mais me seduzia no universo provável das modestas possibilidades de uma família sem recursos próprios da periferia de São Paulo. 
Não me lembro bem agora exatamente por que, talvez porque não houvesse vagas no curso de marcenaria para mim, uma alternativa se abriu vinda de não sei bem onde, provavelmente um anúncio de jornal: a outra opção seria tentar uma aprovação em concurso para um novo tipo de ensino que estava sendo inaugurado pelo governador de São Paulo, Carvalho Pinto, os ginásios vocacionais, cinco ao todo no estado de São Paulo. A seleção era rigorosa, envolvendo provas em várias matérias e entrevistas, nas quais devo ter tido um bom desempenho (sinceramente não me lembro dessa parte), posto que fui imediatamente chamado para a inscrição. 
O “problema” que então se colocou era de ordem financeira, ou talvez, mais exatamente, orçamentária: esse ginásio inédito exigia freqüência integral, em lugar das três ou quatro horas dos ginásios tradicionais, o que colocaria minha família em “dificuldades”. Com efeito, os modestos aportes meus e de meu irmão, em nossas atividades “pecuniárias”, faziam parte integral do orçamento do lar, e minha retirada do “mercado de trabalho” provocaria um déficit primário nos seus recursos líquidos. A “grande transformação” em minha vida foi representada pela decisão familiar de que o garoto de doze anos recém completados que eu era, merecedor pelo sucesso na seleção, seria dispensado dos trabalhos remunerados para seguir quase integralmente a via dos estudos de segundo ciclo, de certa forma um “privilégio de classe”. Foi, provavelmente, o tournant mais importante dessa fase juvenil e para o resto da vida.
Quando digo “dispensado de trabalhos remunerados”, isso não é totalmente correto, posto que continuei, aos sábados pelo menos e provavelmente aos domingos também, a empacotar compras no supermercado Peg-Pag, praticamente durante todo período de estudos ginasiais. Quando se vem de uma família extremamente modesta como era a minha, nenhum aporte é dispensável para o mínimo de conforto de que desfrutávamos. Não tínhamos, obviamente, nem televisão, nem telefone em casa, se tanto um aparelho de rádio, o que de certa forma deve ter contribuído para meus hábitos de leitura intensa e, certamente, aplainou facilmente meu ingresso tranqüilo na seleção dos vocacionais. 

Finalmente, o Ginásio Estadual Vocacional Oswaldo Aranha
Aos doze anos, com uma grande “cultura histórica universal” – especialmente na antiguidade egípcia e grega clássica –, eu dispunha, no entanto, de escassa cultura política brasileira contemporânea, e não tinha a menor idéia de quem fosse Oswaldo Aranha, que não podia, assim servir de premonição para a minha carreira futura na diplomacia. Minha entrada no Vocacional Oswaldo Aranha representou, sem qualquer sombra de dúvida, a mais importante ‘ascensão social’ em minha vida, antes do próprio ingresso na carreira diplomática, constituindo, portanto, uma espécie de ruptura entre o passado modesto, numa família de classe média baixa (provavelmente menos do que isso), e um futuro então em construção e largamente indefinido.
Talvez não tenha sido uma ruptura consolidada, pois que me lembro de que, em certas fases, minha mãe cogitou de me tirar do Vocacional para me colocar num ginásio tradicional, como meu irmão maior, por razoes sempre pecuniárias: não apenas eu não contribuía mais para o orçamento da casa, como passei a representar um ‘peso’, posto que o Vocacional tinha grandes exigências em se tratando de material de estudo e de atividades extra-classe (pagamento de ônibus de viagem, dinheiro de bolso para essas saídas etc.). Todos os meus colegas, com pouquíssimas exceções, eram de famílias de classe média, algumas até abastadas, o que era visível em traços exteriores – a despeito do uniforme e da democracia ambiente – e nas referências às compras, aos objetos pessoais, aos filmes e discos. Também tínhamos essas festinhas de fim de semana, nas casas de colegas, animadas a Cuba Libre (rum com Coca-Cola, para os mais jovens) e Hi-Fi (vodka com Fanta), música dos Beatles naquelas ‘bolachas de vitrola’ (acho que muita gente hoje não tem idéia do que seja). Eu freqüentava todos os eventos, mas por vezes não tinha condições de pagar toda a programação escolar, ou convidar de volta os colegas de classe, para uma casa que nunca teve ‘vitrola’ nem bebidas daquele tipo, sequer sala ou garagem para os bailinhos. 
Tirante esses ‘constrangimentos’ – os do próprio ginásio resolvidos muito amigavelmente com a ajuda da psicóloga Gloria Pimentel e da pedagoga Olga Teresa Bechara –, o Vocacional representou uma das mais vibrantes aventuras intelectuais de minha vida, talvez a mais importante que um jovem como eu poderia esperar receber de uma instituição de ensino. Para ser mais exato, tenho certeza de que seguiria, de qualquer forma, uma carreira ‘intelectual’, posto que desde o primeiro momento que me aproximei dos livros, fui fisgado pelo seu extraordinário poder de sedução e nunca mais consegui me desvencilhar do feitiço que eles carregam. Mas, a passagem por um ginásio tradicional ou o desvio para uma escola técnica provavelmente me fariam perder anos de ensino excepcional e me retirariam a motivação para perseguir o que sempre gostei de fazer: ler (todo tipo de leitura), escrever (sempre), pesquisar e, se possível, publicar os meus textos. Com o Vocacional, eu fiz tudo isso; sem ele, eu teria tido menos chances, se alguma, de avançar nos meus objetivos. 

O que o Vocacional tinha de diferente?
Antes de tudo, uma educação humanista, no sentido mais renascentista do termo. Em segundo lugar, professores especialmente preparados e motivados para essa experiência inédita no Brasil, uma metodologia radicalmente inovadora de ensino, envolvendo os estudantes e os professores num aprendizado integral. Em terceiro (e mais importante) lugar, concepções pedagógicas revolucionárias quanto ao relacionamento entre mestres e alunos. 
Passávamos todo o dia no ginásio, às vezes mais do que isso, com as freqüentes visitas e saídas em trabalho de grupo, no município, no estado, no Brasil. Tivemos visitas recíprocas entre os ginásios vocacionais de São Paulo, aliás, os únicos do Brasil, e aprendemos a fazer pesquisa sobre a comunidade, sobre o meio geográfico, sobre as historias respectivas. Foi no Vocacional que eu comecei a manipular “instrumentos de adultos”, como a Enciclopédia dos Municípios Brasileiros e outras ferramentas especializadas. Foi o Vocacional que nos levou, garotos de 13 ou 14 anos, ao encontro de professores da USP, como Sérgio Buarque de Holanda, Ulpiano Bezerra de Menezes e vários outros. No Vocacional adquiri consciência do mundo: lembro-me perfeitamente de uma palestra com Oliveiros da Silva Ferreira, quem primeiro informou-me sobre a crise dos foguetes em Cuba e o bailado sinuoso da geopolítica bipolar e do equilíbrio do terror pelas armas nucleares das duas super-potências.
Foi a partir do Vocacional que adquiri independência e disposição para me aventurar sozinho pelo mundo, quando a ocasião se apresentou ou quando a necessidade se impôs. O Vocacional completou a “minha formação” de uma maneira que nenhuma outra instituição poderia ter feito, nem jamais conseguiu fazer novamente, depois do desmantelamento do sistema vocacional no seguimento do Ato Institucional n. 5 e a prisão de sua grande promotora, inspiradora e diretora, Maria Nilde Mascellani. Eu também fiquei diferente no Vocacional. Do garoto brincalhão, mas introspectivo e leitor compulsivo, tornei-me um adolescente desinibido, participante e continuei um leitor compulsivo. O Vocacional manteve isso...
Não posso dizer que eu tenha me aborrecido um só dia no Vocacional, ao contrário: todos os dias tínhamos algo novo no ginásio, uma atividade diferente, uma nova parte do programa, o calendário a ser seguido, mas sempre com alguma surpresa no caminho. Fiz excelentes amigos no Vocacional, que conservo até hoje, a despeito mesmo de ter “desaparecido” do Brasil um pouco depois de terminar o colegial e de ter ingressado na Faculdade, e de ter desaparecido no mundo por muitas décadas depois disso. Não vou mencionar meus amigos mais chegados, para não cometer injustiça com ninguém, mas lembro-me de ter iniciado a redação de um romance de aventuras para jovens – do mesmo tipo dos que eu lia naquela fase – com dois deles, que permanecem meus amigos até hoje.
Lembro-me também de muitas aulas, em especial daquelas que mais me prendiam pelo seu conteúdo, já totalmente identificado com minhas afinidades eletivas por toda a vida: eram duas, as de geografia com Dona Odila, as de História com a Professor Terezinha. Em contrapartida, as aulas de Matemática, com a Professor Lucila Bechara, irmã de Olga, sempre me deixaram inconfortável, e até hoje mantenho uma distância respeitosa da matéria (o que não deixo de lamentar, pois a matemática é a base de todo pensamento rigoroso, em especial na economia). As aulas de Educação Física podiam ser agradáveis quando se tratava de jogar handball, com o Professor Frank, mas a ginástica nunca me encantou muito. Mas, tínhamos aulas de tudo o que se podia imaginar numa escola “normal” e muitas outras coisas mais: Artes Plásticas, Artes Industriais, Musica, Economia Doméstica e outras ainda de que nem me lembro. Um depoimento decente de alguém lembrará isso por mim.

Permaneci no GEVOA de 1962 a 1965, anos bastante conturbados no Brasil, quando tomei conhecimento, e consciência, dos problemas do país de uma forma provavelmente menos maniqueísta do que em outras instituições. Creio que sai algo “esquerdista” de lá, como aliás correspondia à juventude progressista de então, no meu caso propensão ainda reforçada pelo fato de minhas origens ditas ‘populares’ e supostamente inclinada a contestar um sistema injusto, feito de exploração capitalista e de dominação imperialista, que convinha acabar, segundo um modelo não muito diferente do que vigia em Cuba.
Quando segui para o “clássico”, no Colégio Estadual Ministro Costa Manso, bem mais próximo de casa do que o Vocacional, comecei imediatamente a participar das passeatas e manifestações contra a ditadura militar e o imperialismo estrangeiro, uma transição quase natural para quem tinha sido educado num ambiente de diálogo e até de contestação às idéias estabelecidas. Também comecei a ler toda a literatura engajada que fazia parte dos currículos oficial e não oficial das faculdades de ciências sociais, autores dos quais eu já tinha ouvido falar no Vocacional, alguns até presentes em minha biblioteca pessoal, que começava então a crescer. Nesses anos, de 1966 a 1968, estudando a noite e trabalhando de dia no centro da cidade, eu freqüentava as bibliotecas Mario de Andrade, municipal, a universitária da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, a corporativa do Centro das Indústrias de São Paulo, e as bibliotecas americanas da USIA, no Consulado americano da Avenida Paulista, e do Centro de Estudos Brasil-Estados Unidos (Cebeu), e poderia facilmente citar de memória muitos livros que retirei em cada uma dessas bibliotecas. 
O Vocacional me tinha preparado para ler literatura de nível universitário numa idade muito precoce e, mais tarde, quando entrei para o curso de Ciências Sociais da USP, eu já conhecia, em grande medida, os autores compilados na bibliografia de referência, pelos menos os brasileiros. Eram os mesmos de que nos falavam os professores no ginásio e isso me foi especialmente gratificante no plano intelectual. Não creio que qualquer outra escola, pública ou particular do ciclo ginasial, teria permitido a um jovem como eu, vindo de uma família que praticamente não dispunha de livros em casa, um contato tão intenso com os mestres das ciências sociais brasileiras, em especial com os gurus da chamada Escola Paulista de Sociologia. 

Eu sinceramente lamento que muitos dos papeis acumulados nesses anos de estudos secundários tenham sido perdidos quando de minha partida apressada para a Europa, nos tempos mais duros da ditadura militar no Brasil, da qual eu fui um dos muitos opositores frustrados com nossa incapacidade organizacional em derrubá-la. Provavelmente foi melhor assim, pois já nessa época, nossa adesão ao socialismo e oposição à “democracia burguesa” não prenunciava nada de bom para o futuro do Brasil (mas isso eu só vim a constatar alguns anos mais tarde).
Lamento também que muitos dos escritos dessa fase juvenil tenham sido perdidos, quando foi no Vocacional que “publiquei” meus primeiros artigos. Felizmente, uma reunião de vários colegas dessas primeira turma, em 2004, me permitiu recuperar uma poesia ingênua, dessa fase – não exatamente publicada, apenas redigida no “caderno de lembranças” de uma colega de classe –, e dois textos minúsculos que saíram no jornalzinho dos alunos, um deles comemorando a vitória das ‘meninas’ do handball contra uma equipe adversária de outro ginásio da região. Talvez não seja o caso de refazer minha lista de publicados, para retroceder vários anos na recuperação desses textos de jornalista amador, mas certamente é um motivo de orgulho ter podido encontrar um espaço totalmente livre, no Vocacional, para realizar os primeiros exercícios de um talento que imagino ter conservado até hoje: a capacidade de observar a realidade, redigir algo compreensível em torno disso e ver o texto publicado e divulgado para um público mais amplo.
Enfim, o Vocacional foi uma escola de verdade, uma escola completa, no mais puro sentido dessa palavra; ao ginásio devo alguns dos momentos mais felizes de minha vida, um oásis de inteligência e cordialidade, num ambiente de convivência totalmente aberta e sincera, num momento em que o Brasil descia na escala da convivência democrática. Foi uma das fontes de meu enriquecimento intelectual e a ele devo muito do que me tornei na vida adulta e do que sou ainda hoje.

Que diferença faz uma escola!
E a diferença foi o Vocacional...

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 10 de janeiro de 2010.

3 COMENTÁRIOS:

Phermarcia disse...
Paulo Roberto, um prazer imenso ler o seu artigo!Estudei no Vocacional de 1967 a 1971, exatamente na transição entre o que foi e o que veio a ser.Compartilho de suas convicções, eu que também venho de uma família de classe média baixa, quando conseguia atingir esse patamar...Convido-o a ler em meu blog o artigo "Vocacional:uma escola que deu certo".A ironia no título é intencional, pois o "deu certo" se refere à intensidade com que essa vivência de poucos anos teve reflexos marcantes e decisivos na vida de cada um de nós. Obrigada, Márcia Fernandes.
www.palavrademusico.blogspot.com
k_lepsch disse...
Olá Paulo Roberto!
Cheguei aqui através do site do GVive, onde o Lou pediu que escrevessemos nossos comentários sobre a possível volta do sistema Vocacional. Li alguns comentários, entre eles o seu e cá estou eu... Estudei no CEOA de 1971 a 1977 (ginásio e colégio - na época já era Colégio Estadual Oswaldo Aranha). Gostei muito do que escreveu tanto lá comoa aqui e pude de certo modo voltar ao passado, onde assim como você, brincava na rua com todas as crianças num bairro hoje de periferia, mas que hoje é considerado região nobre. Morava na Av. Nova Independência no Brooklin Novo - próximo à atual Av. dos Bandeirantes e que na época era um córrego, assim como a atual Av. Luis Carlos Berrini, Jornalista Roberto Marinho e Vicente Rao. Lembro-me que ia brincar a beira do Rio Pinheiros, quando estávam colocando as guias e preparando o saneamento através de cubos enormes que ficavam sobre as ruas de terra antes de serem asfaltadas. Brincávamos de esconde esconde ou de pular de um cubo ao outro, como também fazíamos deles nossa casinha na bricadeira de bonecas. Adorava jogar queimada na frente de casa ou no terreno baldio ao lado. ERa bom demais! Pena que hoje as crianças não têem a oportunidade da infância verdadeira (na minha opinião) que tivemos o enorme prazer de poder usufruir. Empinar pipa, jogar bolinha de gude e tantas outras brincadeiras maravilhosas e divertidas. Mais tarde (lá pelos anos de 1975) a brincadeira era abraço, beijo ou aperto de mão, onde na nossa inocência, começávamos a despertar para o interesse pelo sexo oposto e ansiosos para sermos correspondidos pelos(as) nossos(as) pretendentes (paquerinha). Nossa tanta coisa para recordar... Acabei escrevendo minhas lembranças e distanciei do assunto principal que foi estudar na Grande Escola Vocacional. Me sinto privilegiada por ter tido esse privilégio. Apesar de na minha época não ser mais totalmente período integral, nos transbordou de conhecimento, cultura, experiências, práticas, aprendizado especializado em tantas áeras, tais como: Práticas Comerciais (aprendíamos datilografia); Economia Doméstica (culinária, jardinagem, costura, primeiros socorros, etc...); Educação Indústrial (elétrica, hidráulica, marcenaria desde a planta até a execução - hoje sei fazer vários consertos); Artes Plásticas (cerâmica com uso de torno, xilogravura, esculturas em geral, pintura, etc...); Educação Musical (aprendíamos a tocar flauta doce, coral, ler as notas musicais, hinos e tantas outras coisas legais); Laboratório de Química, Desenho Geométrico e Biologia. Não deveria existir a pergunta: Você acha de deveria voltar o ensino Vocacional? Deveríamos poder dizer de boca cheia: que bom que meus filhos podem ter o mesmo tipo de ensino e educação que eu!!! Infelizmente hoje pura ilusão... Essa história tem que acabar, tem que mudar e se não fizermos pelo menos um pouco cada um a sua parte, o caus existente hoje, a despreparação para educar e aprender, chegará onde? E pensar que esse é apenas um assunto dee todos que devem ser mudados, cuidados, melhorados, elaborados, implantados... Nossos netos terão um mundo melhor?
k_lepsch disse...
Olá Paulo Roberto!
Cheguei aqui através do site do GVive, onde o Lou pediu que escrevêssemos nossos comentários sobre a possível volta do sistema Vocacional. Li alguns comentários, entre eles o seu e cá estou eu... Estudei no CEOA de 1971 a 1977 (ginásio e colégio - na época já era Colégio Estadual Oswaldo Aranha). Gostei muito do que escreveu tanto lá como aqui e pude de certo modo voltar ao passado, onde assim como você, brincava na rua com todas as crianças num bairro hoje de periferia, mas que hoje é considerada região nobre. Morava na Av. Nova Independência no Brooklin Novo - próximo à atual Av. dos Bandeirantes e que na época era um córrego, assim como a atual Av. Luis Carlos Berrini, Jornalista Roberto Marinho e Vicente Rao. Lembro-me que ia brincar a beira do Rio Pinheiros, quando estavam colocando as guias e preparando o saneamento através de cubos enormes que ficavam sobre as ruas de terra antes de serem asfaltadas. Brincávamos de esconde-esconde ou de pular de um cubo ao outro, como também fazíamos deles nossa casinha na brincadeira de bonecas. Adorava jogar queimada na frente de casa ou no terreno baldio ao lado. Era bom demais! Pena que hoje as crianças não têm a oportunidade da infância verdadeira (na minha opinião) que tivemos o enorme prazer de poder usufruir. Empinar pipa, jogar bolinha de gude e tantas outras brincadeiras maravilhosas e divertidas. Mais tarde (lá pelos anos de 1975) a brincadeira era abraço, beijo ou aperto de mão, onde na nossa inocência, começávamos a despertar para o interesse pelo sexo oposto e ansiosos para sermos correspondidos pelos(as) nossos(as) pretendentes (paquerinha). Nossa tanta coisa para recordar... Acabei escrevendo minhas lembranças e distanciei do assunto principal que foi estudar na Grande Escola Vocacional. Sinto-me privilegiada por ter tido esse privilégio. Apesar de na minha época não ser mais totalmente período integral, nos transbordou de conhecimento, cultura, experiências, práticas, aprendizado especializado em tantas áreas, tais como: Práticas Comerciais (aprendíamos datilografia); Economia Doméstica (culinária, jardinagem, costura, primeiros socorros, etc...); Educação Industrial (elétrica, hidráulica, marcenaria desde a planta até a execução - hoje sei fazer vários consertos); Artes Plásticas (cerâmica com uso de torno, xilogravura, esculturas em geral, pintura, etc...); Educação Musical (aprendíamos a tocar flauta doce, coral, ler as notas musicais, hinos e tantas outras coisas legais); Laboratório de Química, Desenho Geométrico e Biologia. Não deveria existir a pergunta: Você acha de deveria voltar o ensino Vocacional? Deveríamos poder dizer de boca cheia: que bom que meus filhos podem ter o mesmo tipo de ensino e educação que eu!!! Infelizmente hoje pura ilusão... Essa história tem que acabar, tem que mudar e se não fizermos pelo menos um pouco cada um a sua parte, o caus existente hoje, a despreparação para educar e aprender chegará onde? E pensar que esse é apenas um assunto de todos que devem ser mudados, cuidados, melhorados, elaborados, implantados... Nossos netos terão um mundo melhor?

sábado, 3 de junho de 2017

Iniciando nova aventura intelectual, com meu amigo Ricardo Roquetti

Uma foto de ocasião: no lançamento do livro que organizei, O Homem que Pensou o Brasil: trajetória intelectual de Roberto Campos (Curitiba: Appris, 2017), por ocasião do seminário em  homenagem aos cem anos do nascimento do grande economista e diplomata, realizado no Palácio do Itamaraty do Rio de Janeiro, em 18 de abril último, com meu amigo e colega de empreendimentos intelectuais Ricardo Wagner Roquetti.


Estamos conspirando intelectualmente a favor da reconstrução do Brasil, contra os aloprados, celerados e mafiosos que provocaram a Grande Destruição do lulopetismo.
Em mais alguns meses vamos produzir algumas peças de análise política.

Paulo Roberto de Almeida

terça-feira, 30 de maio de 2017

Politica externa e relacoes economicas internacionais do Brasil - IPRI-IPEA, Sexta, 2/06

DOIS CONVITES PARA UMA MESMA SEXTA-FEIRA, DIA 2/06/2017
 
 
Relacões econômicas internacionais do Brasil, de Bretton Woods aos nossos dias
Ministro Paulo Roberto de Almeida (IPRI-Funag/MRE)
 
A DINTE/ IPEA  e o IPRI/ FUNAG/ITAMARATY realizarão no dia 2  de junho seu primeiro Seminário Conjunto.
A iniciativa faz parte do programa de trabalho do Acordo de Cooperação IPEA/MRE.
O Seminário constará de apresentação de paper do Ministro Paulo Roberto de Almeida.
O tema será “ A Economia Política das Relações Econômicas Internacionais do Brasil: paradigmas e realidades de Bretton Woods à atualidade”.
O Instituto de Pesquisa em Relações Internacionais (IPRI) é o órgão de pesquisa da  FUNAG do ITAMARATY.

Local . Auditório do 11 o andar do IPEA. 10 hs. Dia 2 de junho de 2017.

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A política externa brasileira no contexto internacional, 1987-2017
Embaixador Sérgio Florêncio (IPEA)
 
A Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG) e o seu Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (IPRI) abrem inscrições para a palestra-debate “A política externa brasileira no contexto internacional, 1987-2017”, com o embaixador Sergio Florêncio (IPEA). O evento será realizado em 02 de junho, esta sexta-feira, às 15h, no auditório Paulo Nogueira Batista, anexo II, do Palácio Itamaraty.
As vagas são limitadas e será disponibilizado certificado de participação. Inscreva-se!

Sobre o palestrante
Sergio Augusto de Abreu e Lima Florêncio Sobrinho
Atualmente é diretor de estudos e relações econômicas e políticas internacionais do IPEA. Mestre em Economia - University of Ottawa (1977). Graduado em Ciências Econômicas pela Universidade do Estado da Guanabara (UEG), atual Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ (1968). Graduado no Curso de Preparação à Carreira de Diplomata pelo Instituto Rio Branco (1970). Vasta experiência na área de Economia, com ênfase em Economia Internacional, desenvolvimento econômico e Relações Internacionais. Ministro de primeira classe do Itamaraty, e desde 1971 desempenhou inúmeras missões diplomáticas, destacando-se como Embaixador do Brasil junto aos Estados Unidos Mexicanos (México) em 2008; Embaixador Alterno na delegação brasileira permanente em Genebra-Suíca, em 2006; e Embaixador do Brasil junto à República do Equador, em 2002.

Serviço:
Tema: A política externa brasileira no contexto internacional, 1987-2017
Palestrante: Sergio Florêncio
Local: Auditório Paulo Nogueira Batista, Palácio Itamaraty, Anexo II, Brasília – DF
Data: 02 de junho de 2017, às 15h

A Guerra Civil Espanhola, numa versao de uma "tendencia interna" do PSOL

Vocês sabiam que existiam "tendências internas" no PSOL?
Pois é, um partido tão pequeno e já tão dividido entre ex-stalinistas, trotsquistas, neoguevaristas, ex-petistas, etc., etc., etc., e outras coisas mais...
Em todo caso, ao consultar um artigo sobre a guerra civil espanhola, descobri isso.
Paulo Roberto de Almeida

Alberto Besouchet, fuzilado pelos republicanos na Espanha

http://www.insurgencia.org/alberto-besouchet-fuzilado-pelos-republicanos-na-espanha/

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Relembrando o brasileiro voluntário nas Brigadas Internacionais e morto covardemente
Por generosa iniciativa do deputado Adriano Diogo, a Comissão Estadual da Verdade realizou, em 24 de setembro, uma audiência pública para homenagear todos os combatentes brasileiros (1) na Guerra Civil Espanhola, em especial David Capistrano e Apolônio de Carvalho. Com isso, estabeleceu um laço de solidariedade entre a militância dos anos 1930 e a resistência à ditadura, quarenta anos depois.
Estava presente a filha de Capistrano, Carolina, que trouxe lembranças muito vívidas a respeito dos comentários de seu pai sobre sua participação na guerra e também sobre como ele, apesar de ações militares ousadas e corajosas, guardou para sempre um sentimento de rejeição à brutalidade de qualquer guerra. Isso teria sido um dos fatores a levá-lo a aceitar a linha chamada de “convivência pacífica”, adotada pelos partidos comunistas depois de 1956.
Como resistência ao fascismo franquista tem tudo a ver com a resistência à ditadura, lembrou ela a morte trágica de David Capistrano. Enquanto militante do PCB, voltava ao Brasil em 1974 e seria recebido pelo militante José Maçon na fronteira, em Uruguaiana. Desapareceram os dois. Sabe-se hoje que eles foram levados para a prisão clandestina conhecida como Casa de Petrópolis, onde tiveram o fim trágico dos torturados até a morte e esquartejados.
Apolônio de Carvalho, que, depois de participar da Guerra Civil Espanhola, integrou-se à Resistência francesa à ocupação dos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, teve a sorte de sobreviver e deixou suas lembranças em Vale a pena sonhar (2), um manancial de informações sobre um largo período da história do Brasil.
Como se tratava de história e de verdade, tive a oportunidade de falar, na audiência, sobre o caso pouco conhecido de Alberto Bomilcar Besouchet, militante comunista que lutou na Espanha, mas que foi fuzilado pelos próprios republicanos. O que significava enveredar por uma história não linear e maniqueísta, abordar, na luta heroica, suas contradições e aberrações, retraçar a linha que levou do pensamento único à repressão policial.
O deputado Adriano Diogo deu provas, nesta ocasião como em outras, que na coordenação da Comissão Estadual da Verdade norteou sempre as atividades com isenção da concepção de pensamento único, que seu esforço pelo restabelecimento da verdade histórica incluiu sempre as várias vertentes que lutaram contra o regime militar.
O cenário mundial
O objetivo deste texto é o de relatar o caso do militante Alberto Besouchet. Ele também era comunista e também foi combater a rebelião franquista na Espanha, em 1936. No entanto, morreu, ou melhor dito, desapareceu, pela ação de policiais republicanos, auxiliados por agentes do serviço secreto soviético e militantes do Partido Comunista Espanhol. Seu desaparecimento aconteceu durante as famosas “Jornadas de Maio” de 1937, em Barcelona, episódio que foi retratado no filme de Ken Loach, “Terra e Liberdade”, que por sua vez está, em grande parte, baseado nas memórias de guerra do escritor inglês George Orwell, Homenagem à Catalunha (3).
Para entender como isto foi possível é preciso inserir a Guerra Civil Espanhola no contexto mundial daquela época. É preciso entender como, dentro da guerra civil entre oficiais do Exército rebelados sob o comando do fascista Franco e as forças defensoras da República espanhola, houve outra guerra, movida por Stalin e seus agentes, contra toda e qualquer esquerda anti-stalinista. Na Espanha estas forças eram representadas pelos anarquistas da CNT-FAI (Confederación Nacional del Trabajo – Federación Anarquista Ibérica) e pelos poumistas, isto é, militantes do POUM (Partido Obrero de Unificación Marxista), genericamente chamados de “trotskistas”.
A Guerra Civil Espanhola marcou profundamente a história dos soviéticos e do movimento comunista internacional. A Espanha foi o cenário em que os comunistas aplicaram a nova linha da Internacional Comunista, decidida pelo 7º Congresso, em 1935, a da Frente Popular. No período anterior, entre 1928 e 1934, os comunistas tinham sido guiados por uma outra linha (6º Congresso), completamente diferente, que determinava que o inimigo principal a combater eram os socialdemocratas, isto é, os partidos socialistas europeus, considerados “traidores da classe operária”. Os documentos e os líderes comunistas internacionais e, sobretudo, alemães, já que nesse período a Alemanha era o palco central da luta, diziam que Hitler não era importante, que o nazismo era um fenômeno passageiro que iria se exaurir com as primeiras vitórias. A aproximação da militância comunista às milícias nazistas em construção foi uma realidade, sempre aprovada pela direção comunista internacional e acompanhada de perto pela política exterior da União Soviética.
O ponto culminante dessa frente informal, que escandalizou comunistas e progressistas de outros países, foi a posição assumida pelos comunistas alemães em 1931, em um momento de ascensão dos nazistas nas eleições, no caso do referendo da Prússia. Os socialdemocratas alemães dirigiam esta que era a maior e mais importante província da Alemanha desde o início da República de Weimar. Sentindo-se fortes, os nazistas propuseram uma votação pedindo a dissolução do Parlamento prussiano. Por ordem da Internacional Comunista, os comunistas alemães declararam o voto com os nazistas (4).
A calamidade desta política sectária, que tem enorme responsabilidade pela ascensão de Hitler ao poder na Alemanha, em 1933, levou a uma mudança radical de linha, no 7º Congresso, em 1935. De repente, na França, em maio de 1934, o Humanité, jornal comunista, publicou um artigo retirado do Pravda que dizia com todas as letras ser admissível propor a unidade de ação aos dirigentes socialistas (5). Estava dado o sinal para a mudança radical de linha. Agora, com a Frente Popular, era preciso fazer frente não apenas com os partidos socialistas, mas também com os partidos burgueses radicais e republicanos. E foi o que aconteceu na Espanha (6).
Mas, ao mesmo tempo em que se abria à direita, a Internacional Comunista enviesava seu sectarismo contra todos os grupos à sua esquerda. Agora o inimigo principal a combater eram os esquerdistas e, principalmente, os “trotskistas”, isto é, os militantes do movimento trotskista e todos os que fizessem críticas à União Soviética e à “linha do partido”. A luta interna dentro do partido comunista soviético transplantou-se para o movimento comunista internacional e para a Guerra Civil da Espanha.
Acontecimentos dramáticos permearam esta transplantação. Em dezembro de 1934, um alto dirigente do partido soviético, Kirov, foi misteriosamente assassinado. Este crime nunca foi completamente elucidado, embora o Relatório Kruschev, de 1956, fale insistentemente na responsabilidade do Estado (7). Mas foi o fator determinante para desencadear um expurgo generalizado dentro do partido soviético, com prisões, torturas, fuzilamentos com ou sem processo, condenações a trabalhos forçados e a exílio na Sibéria.  Esse processo chega a seu ápice exatamente nos anos da Guerra Civil Espanhola.
Em uma atmosfera de medo e terror, na qual a delação de companheiros e colegas de trabalho, nas famosas sessões de autocrítica, aparecia como uma prova de fidelidade ao regime, realizaram-se os chamados “Processos de Moscou”, nos quais foi exterminada a “velha guarda bolchevique”. O primeiro em agosto de 1936, o segundo em janeiro de 1937 e o terceiro em março de 1938, condenaram ao fuzilamento imediato, entre outros, Zinoviev, Kamenev, Piatakov, Bukharin e Rikov, tendo como acusado máximo Trotsky e seu filho Lev Sedov, que estavam fora da União Soviética. Foram vergonhosas paródias de justiça, processos-espetáculo, em que os condenados se acusaram de complôs impossíveis e inverossímeis, previamente escritos pelos agentes do NKVD, a polícia secreta soviética.
É dentro deste contexto que aconteceu também o processo secreto contra oito grandes generais do Exército Vermelho, entre eles Toukachevtsky e Yakir, fuzilados em junho de 1937, ao qual se seguiu um expurgo e consequente repressão aos quadros do Exército, muitos dos quais tinham estado na Espanha.
Mas essa repressão não se limitou aos membros do partido soviético, atingindo também massas de cidadãos. Segundo o historiador Nicolas Werth, “de agosto de 1937 a novembro de 1938, cerca de 760 mil cidadãos soviéticos foram executados depois de terem sido condenados à morte por um tribunal de exceção, ao cabo de uma paródia de julgamento. (…) Ao mesmo tempo, mais de 800 mil soviéticos eram condenados a penas de dez anos de trabalhos forçados e enviados ao Goulag” (8).
O cenário mundial dentro da guerra da Espanha
Agora o inimigo principal era a esquerda: os esquerdistas e os trotskistas. Mas não era mais uma perseguição apenas política e a Espanha foi um laboratório de extermínio da esquerda. Muitos chamados esquerdistas foram assassinados pelos serviços secretos soviéticos e desapareceram, como, por exemplo, o alemão Erwin Wolf, ex-secretário de Trotsky, Camillo Beneri e Fracesco Barbieri, anarquistas italianos, Marc Rein, jornalista socialdemocrata, e o austríaco Kurt Landau, do POUM, para só citar alguns. No início da guerra, o grande anarquista Buenaventura Durruti havia sido morto por uma bala perdida, em Madri, em 20 de novembro de 1936, bala que muitos atribuem aos comunistas.
Mas a repressão também atingiu muitos stalinistas que voltaram da Espanha e foram em seguida presos e fuzilados. Por exemplo, o general Berzine, o general Goriev, o jornalista do Pravda, Koltsov, personagem do livro de Hemingway, Por quem os sinos dobram, e Antonov-Ovsenko, herói da revolução, que havia comandado a tomada do Palácio de Inverno em 1917, cônsul geral soviético em Barcelona, e que tanto trabalhou na Espanha pela repressão à esquerda.
Os voluntários das Brigadas Internacionais, sob o clima de medo e delação reinante na URSS, também sofreram censuras, expurgos, castigos sob a forma de tarefas militares praticamente impossíveis, levando à morte, e execuções sumárias, que aparecem em muitos relatos. O comunista francês André Marty ficou com a fama de ser um dos mais brutais. Ele é descrito no romance já citado de Hemingway como “el carnicero de Albacete”, cidade sede das Brigadas. No entanto, outras narrativas, mais detalhadas, evocam o regime de terror implantado pelo “General Gómez”, na verdade Wilhelm Zaisser, ex-membro do serviço secreto do Partido Comunista Alemão e que depois da guerra dirigiu a “Stasi”, polícia política da RDA (República Democrática Alemã – 9).
Esse clima transparece até em algumas frases dos brigadistas brasileiros que voltaram. Quando entrevistados pelo pesquisador brasileiro Paulo Roberto de Almeida sobre o destino de Alberto Besouchet, Gay da Cunha declarou que ele teria sido fuzilado por André Marty, enquanto para explicar um fuzilamento conduzido pelos republicanos José Homem Correia de Sá disse: “Havia muita incompreensão e ser fuzilado não denigre ninguém” (10).
As “jornadas de maio” e a morte de Andrés Nin
A operação que deu lugar ao episódio das “Jornadas de maio” na Catalunha foi concebida dentro da ideia de liquidar a esquerda – os “trotskistas” e os “incontroláveis” isto é, os anarquistas. O Pravda já anunciara, em dezembro de 1936, essa liquidação (11).
Era nessa província que os andaimes de uma estrutura socialista tinham avançado mais. Os líderes do movimento sindical e operário eram os anarquistas da CNT-FAI e o POUM. O prédio da Central Telefônica, em Barcelona, estava ocupado pelos sindicatos UGT (socialistas) e CNT, desde o início da guerra, juntamente a uma delegação do governo da Catalunha, a Generalitat.
Em 3 de maio de 1937, esse prédio foi atacado por guardas de assalto chefiados por Rodrigues Sala, que era Comissário da Ordem Pública e comunista. Houve resistência e um pequeno tiroteio. Em seguida, espontaneamente, em cerca de poucas horas, a região em torno, em um círculo que atravessava a cidade, foi tomada por operários e milicianos ligados aos anarquistas e aos poumistas. A população trabalhadora mobilizada queria resistir e conservar a posse do prédio. Começaram as escaramuças, narradas no filme de Ken Loach, e depois o combate violento. O serviço secreto russo, o NKVD, junto com comunistas espanhóis, organizava o ataque. Depois de tentar uma reconciliação entre as duas partes, as forças políticas do governo central, chefiadas pelo socialista Largo Caballero e com ministros comunistas, enviaram tropas e a repressão começou. Cerca de 1.000 pessoas foram feridas e 500 foram mortas. Além disso, houve muitos presos. A Telefônica foi desocupada (12).
Começou então a perseguição direta aos militantes do POUM e, em especial, a seu dirigente mais importante, Andrés Nin. Os soviéticos o conheciam bem. Em 1921, ele tinha sido eleito delegado da CNT para assistir ao 3º Congresso da Internacional Comunista e ao congresso de fundação da PROFINTER (Internacional Sindical Vermelha) em Moscou. Permaneceu nesse país trabalhando nesses organismos. Em 1926, aderiu à “Oposição de Esquerda” dentro do partido soviético, liderada por Trotsky. Só deixou o país para voltar à Espanha com a proclamação da República, em 1930.
A perseguição stalinista aos poumistas e a Nin foi estruturada pelo NKVD. Um dos seus principais agentes na Espanha, Orlov, conforme documentos já decifrados nos arquivos russos sobre a “Operação Nikolai”, confeccionou um documento falso que provaria que Nin agia em conluio com os franquistas (13). A ideia era fazer um “processo de Moscou” na Espanha contra um “complô POUM-franquistas”. Andrés Nin foi preso em junho e depois sequestrado da prisão oficial de Alcalá de Henares, perto de Madri.  Foi levado para uma das prisões clandestinas dos agentes soviéticos, chamadas “tchecas”. Torturado para confessar o script do documento falso, não confessou. Não se sabe como foi a tortura que levou à sua morte, mas o relatório de Orlov a Moscou, decifrado pelo filme já citado, encomendado pela Generalitat da Catalunha à Televisão Espanhola, indica os autores da operação e da morte: três espanhóis cujos nomes estão riscados, Orlov e dois outros agentes soviéticos sobre cuja identidade verdadeira se discute ainda. Cobrados publica e até internacionalmente, os comunistas alegaram que ele teria sido sequestrado de Alcalá por franquistas, seus aliados. Coube ao jornalista do Pravda, Koltsov, depois fuzilado, redigir esta explicação (14).
Desaparecimento e morte de Alberto Besouchet
A morte do brasileiro Alberto Besouchet se encaixa neste cenário. As referências à sua história são ainda hoje poucas e esparsas. Há o artigo do diplomata Paulo Roberto de Almeida (15), publicado em 1999, e que foi a base da audiência pública a que me referi no início. Trabalho de historiador, dedicado a retraçar a trajetória de todos os voluntários brasileiros na Guerra Civil Espanhola, ele constitui em si mesmo um capítulo sobre a censura na ditadura brasileira, já que sua primeira versão, concluída em 1979, teve de ser publicada sob o pseudônimo de Pedro Rodrigues, pois o tema era perigoso no Itamaraty. Paulo Roberto de Almeida pôde entrevistar vários combatentes ainda vivos e o irmão de Alberto Besouchet, Augusto. Referindo-se no início do artigo ao caso do seu desaparecimento como “o mistério dos mistérios”, ele retoma tudo que conseguiu averiguar entre as testemunhas que puderam contar alguma coisa (16).
O artigo do historiador Dainis Karepovs (17), escrito em 2006, pôde avançar mais na medida em que inseriu o desaparecimento de Alberto Besouchet no clima de medo e delação que cercou os anos 1936, 1937 e 1938 na URSS e na campanha dos agentes do NKVD pela liquidação do POUM. Utilizando documentos do agrupamento trotskista Liga Comunista Internacionalista, pôde entrar melhor na alma da luta que se travava.
É baseado nestes dois autores, principalmente no segundo, e também em algumas referências feitas por Apolônio de Carvalho em suas memórias (18), que consegui recuperar os elementos básicos da trajetória de Alberto Besouchet. Ele era filho de militar e optou pela carreira do pai. Era também militante do Partido Comunista Brasileiro, como seus irmãos, Augusto, Lídia e Marino. Como tenente, participou do levante comunista de 1935, em Recife e, embora ferido, não foi preso.
Voltou ao Rio de Janeiro e contatou seus irmãos que, entretanto, tinham sido expulsos do Partido por terem criticado a forma com que foi feito o levante de 1935, julgando-a irresponsável. Posteriormente haviam entrado em contato com a Liga Comunista Internacionalista. Eles tentaram ganhar o irmão para suas novas posições, mas não conseguiram. Em vez disso, Alberto Besouchet decidiu partir para a Espanha para colocar a serviço do povo espanhol seus conhecimentos militares. E não saiu do Partido.
No entanto, antes de viajar, escreveu uma carta aberta aos companheiros, entregando-a à direção, pedindo que a divulgasse, na qual conclamava todos, inclusive os presos, a persistirem na luta por “um regime mais justo e humano”. A carta não foi divulgada, mas, sim, respondida com termos grosseiros. Ele havia usado as expressões “Espanha soviética”, “Revolução proletária mundial” e “burguesia internacional”, que a direção considerou “esquerdistas”. Além do mais, já tinha os irmãos fora do Partido (19).
As fontes concordam em que ele foi o primeiro brasileiro a chegar à Espanha para lutar. Teve contatos com comunistas brasileiros na França, caminho para chegar ao território espanhol, onde entrou em fevereiro de 1937. As fontes dizem também que levava uma carta de Mário Pedrosa para Andrés Nin. Não está claro se integrou as Brigadas ou as milícias do POUM. Foi ferido em Guadalajara, quando já tinha o posto de coronel.
Sobre o seu desaparecimento e morte as informações são esparsas. Na documentação sobre os brasileiros na Espanha, contida nos arquivos russos da Internacional Comunista, há apenas, em um relatório assinado por um nome não identificado, a reprodução de uma informação do major Costa Leite, comunista e militar mais graduado a ir para a Espanha, de que Besouchet, além de ter tido relações com os trotskistas, teria sido morto nos acontecimentos de maio de 1937, na Espanha. Mas a família Besouchet recebeu a informação de que ele teria sido fuzilado durante a retirada final das Brigadas Internacionais, de Barcelona, em 1938, juntamente com anarquistas e trotskistas ali presos (20).
Estes retalhos de narrativas se encaixam com as breves palavras de Apolônio de Carvalho: “O tenente Alberto Besouchet, que eu conhecia de Realengo, foi o primeiro de nós a chegar à Espanha, ainda mal curado dos ferimentos infligidos em Recife, quando do levante de novembro. (…) Ascende a coronel em maio de 1937, momento de crise aguda no seio das esquerdas, e logo depois é preso como militante do partido de Andrés Nin. Fins de 1938, com os franquistas às portas de Barcelona, Besouchet é assassinado covardemente. Nada poderá apagar, contudo, a imagem desse comunista culto, modesto e bravo como poucos” (21).
É assassinado covardemente por quem? Obviamente por aqueles que detinham os presos do POUM. Lembrando que a queda da Central Telefônica durante as “jornadas de maio” de 1937 e a repressão que se seguiu a ela levaram à prisão muitos militantes do POUM, é forçoso deduzir que foi nesta situação que a morte o colheu. Lembrando ainda que Julián Gorkin, o segundo mais importante dirigente do POUM, relata que foi preso nessa época e, com outros poumistas, carregado de “tcheca” em “tcheca” durante 18 meses, até que, com a queda de Barcelona nas mãos dos franquistas, conseguiu fugir (22).
Notas:
(1) No folder distribuído com informações históricas está a lista de seus nomes: Alberto Bomilcar Besouchet, David Capistrano, Apolônio de Carvalho, Joaquim Silveira dos Santos, José Homem Correia de Sá, Eneas Jorge de Andrade, Nelson de Souza Alves, Roberto Morena, Dinarco Reis, Delcy Silveira, Eny Antonio Silveira, Nemo Canabarro Lucas, José Gay da Cunha, Hermenegildo de Assis Brasil, Carlos da Costa Leite, Homero de Castro Jobim.
(2) Apolônio de Carvalho, Vale a pena sonhar. Rio de Janeiro, Rocco, 1997.
(3) George Orwell, Lutando na Espanha – Homenagem à Catalunha. São Paulo, Ed. Globo, 2006
(4) Angela Mendes de Almeida, A República de Weimar e a ascensão do nazismo. São Paulo, Brasiliense, 1982, p. 108.
(5) Fernando Claudín, La crisis del movimiento comunista – De la Komintern al Kominform. Francia, Ruedo Iberico, 1970, p. 137.
(6) Angela Mendes de Almeida, Revolução e guerra civil na Espanha. São Paulo, Brasiliense, 1981.
(7) A. Rossi, Autopsie du stalinisme – Avec le texte intégral du Rapport Khrouchtchev. Paris, Ed. Pierre Horay, 1957.
(8) Nicolas Werth, L’ivrogne e la marchande de fleurs – Autopsie d’um meurtre de masse – 1937-1938, p. 16.
(9) Sigmunt Stein, Ma guerre d’Espagne. Paris, Seuil, 2012, pp. 209 e ss.; e Pierre Broué, Staline et la révolution – Le cas espagnol. Paris, Fayard, 1993, p. 359.
(10) Cf. Paulo Roberto de Almeida, “Brasileiros na guerra civil espanhola”, Revista Sociologia e Política, nº 12, jun. 1999, p. 50. http://www.scielo.br/pdf/rsocp/n12/n12a03
(11) Julián Gorkin, Las jornadas de mayo en Barcelona, http://www.fundanin.org/gorkin8.htm;
(12) Julián Gorkin, ibid.
(13) Filme de Llibert Ferri e Dolores Genovés, Operación Nikolai – http://www.youtube.com/watch?v=zLAfmtlCgTU; e Pavel Sudoplatov et Anatoli Sudoplatov,Missions Speciales – Mémoires du maître-espion soviétique Pavel Sudoplatov. Paris, Seuil, 1994, p. 76. Ao final da guerra, Orlov foi convocado para voltar a Espanha e, temendo ser fuzilado, desertou, fugindo para os Estados Unidos. Escreveu diretamente a Stalin, prometendo que nada falaria se não tocassem em sua velha mãe. E assim fez, só escrevendo memórias depois da morte do ditador.
(14) Julián Gorkin, já citado; Pierre Broué, Staline et la révolution – Le cas espagnol. Paris, Fayard, 1993, p. 183.
(15) Paulo Roberto de Almeida, op. cit.
(16) Op. cit., pp. 37-38 e 49-50.
(17) Dainis Karepovs, “O caso Besouchet, ou o lado brasileiro dos processos de Moscou pelo mundo”, Olho da História, 8/12/2006 – http://oolhodahistoria.org/artigos/ESPANHA-o%20caso%20besouchet-dainis%20karepov.pdf
(18) Apolônio de Carvalho, op. cit.
(19)Todas estas informações estão em D. Karepovs, op. cit.
(20) Cf. D. Karepovs, op. cit.
(21) Apolônio de Carvalho, op. cit., p. 125.
(22) Julián Gorkin, L’assassinat de Trotsky. Paris, Julliard, 1970, p.8.
Angela Mendes de Almeida é historiadora e coordenadora do site Observatório das Violências Policiais.
Texto publicado originalmente no Correio da Cidadania em 21/10/2014